A UNESCO alerta que o debate global sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) generativa na educação é permeado por mitos que colocam o futuro da aprendizagem em risco. Entre eles, destaca-se a falácia de que a tecnologia poderia substituir a figura do professor. Conforme Shafika Isaacs, chefe da seção de tecnologia de IA na Educação da UNESCO, a tecnologia pode otimizar a gestão de dados, mas é incapaz de promover o desenvolvimento humano, visto que a educação é, essencialmente, uma experiência social, humana e cultural. Para que a IA seja, de fato, um avanço, é imperativo superar desigualdades socioeconômicas e estabelecer um projeto político-pedagógico que garanta soberania, sustentabilidade, proteção de dados e transparência algorítmica.
Em uma perspectiva crítica, é preciso qualificar a predominância da educação privada sobre a pública no acesso a essas tecnologias. As escolas particulares, inseridas na lógica de mercado, tendem a adotar inovações mais rapidamente, muitas vezes não por razões puramente pedagógicas, mas por uma busca de diferenciação competitiva que atrai "clientes". Esse fenômeno cria um abismo educacional onde a tecnologia atua como mecanismo de reprodução de classe, conforme teorizado por Pierre Bourdieu (1970). Enquanto a elite acessa ferramentas de ponta como "acesso" e "rede de contatos", a escola pública, frequentemente, vê-se limitada ao básico, carecendo de infraestrutura mínima e de capacitação docente para uma orientação crítica. Quando a educação é vista como produto, o aluno deixa de ser sujeito da aprendizagem para se tornar cliente.
Dados da 15ª edição da pesquisa TIC Educação reforçam esse cenário: embora a maioria dos estudantes do ensino médio utilize IA generativa, apenas 32% receberam orientação pedagógica. Sob uma análise sociológica, a "modernização" educacional via IA, muitas vezes, mascara um processo de extrativismo de dados e padronização cognitiva. Ao ignorar a transparência e a origem do conhecimento, trocamos a pedagogia pela algoritmização. Como pontua Paulo Freire (1996), a verdadeira "modernização" não reside na adição de tecnologia à sala de aula, mas na ampliação da capacidade do estudante de ler a sua realidade. Afinal, "a leitura do mundo precede a leitura da palavra".
A falta de crédito sobre a produção intelectual é a base do modelo de negócio das IAs. Ao utilizar esses sistemas sem questionar a procedência ou a ética de sua origem, a escola corre o risco de validar um sistema que se alimenta da inteligência coletiva (professores, artistas, pesquisadores) para gerar lucros privados. Como alerta Sérgio Amadeu (2025), a promessa de velocidade e automatização desestimula o pensamento autoral, substituindo-o por um saber "pré-mastigado".
Ademais, a autonomia do professor e a curadoria pedagógica estão ameaçadas. Ao delegar o currículo a plataformas proprietárias, a escola confina o aluno em uma "bolha de conhecimento". Diferente do livro, que é auditável, o modelo de linguagem da IA é opaco. Se o sistema apresenta vieses (como a predominância de uma visão eurocêntrica), o professor, sem a devida autonomia e letramento, terá dificuldade em desconstruir tais erros. Como explica o professor Nélson Pretto, a educação exige mediação e afeto. A IA, que opera por correlação estatística, não substitui o encontro humano, o conflito e a negociação de sentidos que ocorrem na sala de aula.
No âmbito regulatório, o Conselho Nacional de Educação (CNE) tem buscado estabelecer diretrizes sobre o uso dessa tecnologia. Os pilares em debate reafirmam a centralidade do professor como mediador, a necessidade de letramento digital ético e a urgência de regras rígidas para a proteção de dados. No entanto, a politização da IA não se esgota na norma, vai ao “teste da sala de aula” com o desafio de garantir que a tecnologia sirva para expandir o humano e não para torná-lo redundante.
Conclui-se, portanto, que a educação contemporânea no Brasil exige a valorização e a formação continuada de docentes que consigam integrar a tecnologia de forma crítica. O caminho, como propõe Shafika Isaacs e Nélson Pretto, é a construção de soluções soberanas que fortaleçam a educação como um espaço de formação e não de adestramento. Como nos ensina Paulo Freire (1996) na Pedagogia da Autonomia, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”.
Por Zélder Reis
A partir do artigo: KLESHCHEVA, Evgeniya. Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores. ONU News, 26 jan. 2026. Disponível em: KLESHCHEVA, Evgeniya. Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores. ONU News, 26 jan. 2026. Disponível em: Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores | ONU News. Acesso em: 20 abr. 2026.. Acesso em: 20 abr. 2026.


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