Fim
da escala 6x1: Cabo Frio precisa de um turismo que se valorize,
proteja seus bens naturais, mas também o trabalhador!
Por Zélder Reis
A reportagem da Folha Lagos, ao apresentar as preocupações de representantes do comércio de Cabo Frio com o fim da escala 6x1, coloca em evidência um debate fundamental para o futuro da nossa cidade: que modelo de desenvolvimento queremos construir e a quem deve beneficiar a riqueza gerada pelo turismo?
Os empresários manifestam receio de aumento de custos, preços, demissões e dificuldades para atender à demanda durante a alta temporada. São questões que precisam ser discutidas com responsabilidade. Entretanto, não podemos olhar apenas para as contas das empresas, seus lucros e esquecer a realidade de milhares de trabalhadores (as) que movimentam diariamente a economia cabo-friense.
Quem trabalha nas lojas da Rua dos Biquínis, nos restaurantes da Passagem, nos hotéis, nas pousadas, nos bares e no comércio do Centro também tem direito ao descanso, ao convívio familiar, ao lazer, à cultura e à educação. Afinal, Cabo Frio não pode ser uma cidade maravilhosa para os turistas e exaustiva para quem trabalha para recebê-los.
A experiência internacional, especialmente em países como França e Bélgica, demonstra que jornadas de trabalho menores podem fazer parte de economias modernas, com regras de proteção social e diferentes mecanismos de organização produtiva. Estudos da OCDE sobre reformas europeias também mostram que a redução das horas trabalhadas não implica necessariamente perda de empregos. Isso não elimina os desafios da adaptação brasileira, mas mostra que o alarmismo não pode substituir o planejamento. Muito menos fazer campanhas veladas para impedir a efetividade de uma lei federal!
Em Cabo Frio, a sazonalidade do turismo exige organização, qualificação profissional, diálogo entre empresários e trabalhadores e políticas públicas que fortaleçam os pequenos negócios. Contudo, o turismo sustentável precisa ir além da preservação das nossas praias, lagoas e paisagens. Deve garantir também trabalho digno e distribuição mais justa dos benefícios econômicos gerados pela atividade turística. Nesse sentido o argumento de falta de mão de obra qualificada parece frágil e abre caminho para a precarização de salários.
O desenvolvimento da cidade não pode ser medido somente pelo número de visitantes, pelo faturamento do comércio ou pela arrecadação. Precisamos perguntar também: quanto dessa riqueza se transforma em qualidade de vida para a população trabalhadora? Quanto tempo essas pessoas têm para estudar, cuidar dos filhos, participar da vida cultural e usufruir da própria cidade?
Após a aprovação da lei do fim da escala 6x1 é imperativo que continuemos a defender sua efetivação na prática, e isso não significa ignorar as dificuldades do comércio. Significa reconhecer que os avanços econômicos devem caminhar junto com os direitos sociais. Com planejamento e responsabilidade, Cabo Frio pode transformar esse desafio em oportunidade para modernizar suas relações de trabalho e fortalecer um turismo mais justo e sustentável.
Nossa cidade precisa de um desenvolvimento que valorize tanto quem nos visita quanto quem vive aqui e constrói, com seu trabalho, a riqueza de Cabo Frio. Porque o turismo só será verdadeiramente sustentável quando o bem-estar de quem chega também respeitar a dignidade de quem fica.
“O
trabalho deve garantir a vida e
a acesso aos bens, não
consumir a vida inteira”
Artigo Folha Lagos:
Aprovação do fim da escala 6x1 no Senado acende alerta no comércio de Cabo Frio - Folha dos Lagos

.jpeg)



.jpg)



