sábado, 25 de abril de 2026

Algoritmização da Educação

 


Algoritmização da Educação: Entre os Mitos da IA e o Desafio da Soberania Pedagógica


A UNESCO alerta que o debate global sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) generativa na educação é permeado por mitos que colocam o futuro da aprendizagem em risco. Entre eles, destaca-se a falácia de que a tecnologia poderia substituir a figura do professor. Conforme Shafika Isaacs, chefe da seção de tecnologia de IA na Educação da UNESCO, a tecnologia pode otimizar a gestão de dados, mas é incapaz de promover o desenvolvimento humano, visto que a educação é, essencialmente, uma experiência social, humana e cultural. Para que a IA seja, de fato, um avanço, é imperativo superar desigualdades socioeconômicas e estabelecer um projeto político-pedagógico que garanta soberania, sustentabilidade, proteção de dados e transparência algorítmica.

Em uma perspectiva crítica, é preciso qualificar a predominância da educação privada sobre a pública no acesso a essas tecnologias. As escolas particulares, inseridas na lógica de mercado, tendem a adotar inovações mais rapidamente, muitas vezes não por razões puramente pedagógicas, mas por uma busca de diferenciação competitiva que atrai "clientes". Esse fenômeno cria um abismo educacional onde a tecnologia atua como mecanismo de reprodução de classe, conforme teorizado por Pierre Bourdieu (1970). Enquanto a elite acessa ferramentas de ponta como "acesso" e "rede de contatos", a escola pública, frequentemente, vê-se limitada ao básico, carecendo de infraestrutura mínima e de capacitação docente para uma orientação crítica. Quando a educação é vista como produto, o aluno deixa de ser sujeito da aprendizagem para se tornar cliente.

Dados da 15ª edição da pesquisa TIC Educação reforçam esse cenário: embora a maioria dos estudantes do ensino médio utilize IA generativa, apenas 32% receberam orientação pedagógica. Sob uma análise sociológica, a "modernização" educacional via IA, muitas vezes, mascara um processo de extrativismo de dados e padronização cognitiva. Ao ignorar a transparência e a origem do conhecimento, trocamos a pedagogia pela algoritmização. Como pontua Paulo Freire (1996), a verdadeira "modernização" não reside na adição de tecnologia à sala de aula, mas na ampliação da capacidade do estudante de ler a sua realidade. Afinal, "a leitura do mundo precede a leitura da palavra".

A falta de crédito sobre a produção intelectual é a base do modelo de negócio das IAs. Ao utilizar esses sistemas sem questionar a procedência ou a ética de sua origem, a escola corre o risco de validar um sistema que se alimenta da inteligência coletiva (professores, artistas, pesquisadores) para gerar lucros privados. Como alerta Sérgio Amadeu (2025), a promessa de velocidade e automatização desestimula o pensamento autoral, substituindo-o por um saber "pré-mastigado".

Ademais, a autonomia do professor e a curadoria pedagógica estão ameaçadas. Ao delegar o currículo a plataformas proprietárias, a escola confina o aluno em uma "bolha de conhecimento". Diferente do livro, que é auditável, o modelo de linguagem da IA é opaco. Se o sistema apresenta vieses (como a predominância de uma visão eurocêntrica), o professor, sem a devida autonomia e letramento, terá dificuldade em desconstruir tais erros. Como explica o professor Nélson Pretto, a educação exige mediação e afeto. A IA, que opera por correlação estatística, não substitui o encontro humano, o conflito e a negociação de sentidos que ocorrem na sala de aula.

No âmbito regulatório, o Conselho Nacional de Educação (CNE) tem buscado estabelecer diretrizes sobre o uso dessa tecnologia. Os pilares em debate reafirmam a centralidade do professor como mediador, a necessidade de letramento digital ético e a urgência de regras rígidas para a proteção de dados. No entanto, a politização da IA não se esgota na norma, vai ao “teste da sala de aula” com o desafio de garantir que a tecnologia sirva para expandir o humano e não para torná-lo redundante.

Conclui-se, portanto, que a educação contemporânea no Brasil exige a valorização e a formação continuada de docentes que consigam integrar a tecnologia de forma crítica. O caminho, como propõe Shafika Isaacs e Nélson Pretto, é a construção de soluções soberanas que fortaleçam a educação como um espaço de formação e não de adestramento. Como nos ensina Paulo Freire (1996) na Pedagogia da Autonomia, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”.


Por Zélder Reis

A partir do artigo: KLESHCHEVA, Evgeniya. Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores. ONU News, 26 jan. 2026. Disponível em: KLESHCHEVA, Evgeniya. Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores. ONU News, 26 jan. 2026. Disponível em: Unesco alerta que a inteligência artificial nunca poderá substituir os professores | ONU News. Acesso em: 20 abr. 2026.. Acesso em: 20 abr. 2026.


domingo, 19 de abril de 2026

“Duas cabeças nem sempre pensam melhor que uma”



Y-2.1 "Duas cabeças nem sempre pensam melhor que uma" de Cisko Diz

Eu demorei um pouco para escrever minhas reações, mas a leitura foi prazerosa e rendeu boas risadas. Contudo, a obra é carregada de tantas referências (entre ficção e coincidências) que seria uma grande descortesia não dedicar o tempo necessário a este trabalho de pesquisa do meu amigo Cisko Diz. Então, sem medo de contrariar o autor ou desmerecer o universo de “Mugguinho e Xêpa”, vamos lá!

Conspirações: O que significa Y-21? O título traz uma carga simbólica densa: o cromossomo Y, que define o sexo masculino; o século XXI, a nossa contemporaneidade; e o DDD 21, o Rio de Janeiro, capital cultural e palco central da nossa história política. A ideia das "duas cabeças" em um único corpo é criativa e remete à estranheza contida na obra de Tim Burton, evocando tanto filmes clássicos quanto a inspiração no conceito de Freaks. É um grito-apelo à diversidade, que reafirma o masculino enquanto convida a respeitar o feminino existente em todo ser humano.

Estética: O traço como marca O traço do desenho é uma assinatura histórica de Cisko, que remete aos tempos em que "fez a capa do CD e o logo da banda Nocaute nos anos 90". Ele traz a influência dos comic books do século passado, e o uso do preto e branco, com texturas que lembram xilogravura e retículas, reforça o elo entre a nostalgia estética e a urgência do contemporâneo em Y-21.

O Argumento: A engrenagem do sistema. Se eu não tivesse visto notícias recentes, como as prisões de figuras da cena urbana, como MC Poze do Rodo e MC Ryan, certamente lembraria de Meu Nome Não É Johnny (Guilherme Fiuza) ou de Cidade de Deus (Paulo Lins). São argumentos que convergem para o mesmo ponto: o sistema capitalista é movido pela desigualdade, pelo lucro e pela reprodução de suas próprias práticas (corrupção, violência e poder). A história de uma família monoparental da Baixada Fluminense (Caxias), que tenta vencer sem oportunidades em um recorte urbano carente, é clássica: o indivíduo vence, mas, como é explorado pelo sistema, acaba sendo descartado assim que sua "magia" ou seu segredo é descoberto.

Y-21 é, em essência, um storyboard e um making of prontos para rodar nas telas.

Narrativa e Conclusão A história traz o herói improvável com a pegada de Freaks. E, para fechar, até os agradecimentos foram criativos!

Como bem sintetiza Cisko Diz: “Duas cabeças nem sempre pensam melhor que uma, a gente é movido à raiva e resiliência.” Uma verdade que, às vezes, precisa de um personagem para ser dita.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Jesus sem teto


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Est%C3%A1tua_Jesus_sem_teto_%28paisagem%29.jpg e Cartaz CF2026 CNBB

 A Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Igreja Católica e pela CNBB, terá como tema “Fraternidade e Moradia” e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O objetivo é conscientizar sobre o direito à moradia digna, destacando a realidade de milhões de brasileiros sem lar e privados de dignidade humana.

Em Mateus 8,20 lemos: “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Jesus escolhe estar fora da posse e da propriedade, rejeitando a sacralização de um lugar específico para estar em todos os lugares, sobretudo onde a sociedade falhou, onde o sistema de moradia foi corrompido pela ganância e pela falta de solidariedade.

Jesus encarna o sem-teto para denunciar a desigualdade e alerta os que desejam segui-lo: “Não tenho onde reclinar a cabeça”. Com isso, não sacraliza o sofrimento, mas chama ao compromisso com o evangelho e à partilha. A dimensão de habitar está presente no conceito de Shekinah, que significa “Deus habitando”, e o próprio Cristo é considerado templo.

A Campanha da Fraternidade é, ao mesmo tempo, teológica e social, dimensões inseparáveis. O Papa Francisco e, mais recentemente, o Papa Leão XIV reforçam esse sentido ao pedir “terra, teto e trabalho” como virtudes do evangelho e direitos fundamentais da pessoa humana.

O tema “Fraternidade e Moradia” amplia o debate sobre desenvolvimento socioeconômico e busca superar os conflitos relacionados à habitação, tanto nas cidades quanto no campo, diante da omissão ou incompetência do poder público. Segundo a CNBB, cerca de 118 milhões de pessoas vivem sem moradia ou condições precárias. Parte estão em  situação de rua, ocupações, aluguel social, moradia de favor, abrigos, áreas de risco (como barragens e encostas), moradias inadequadas (sem título de posse, palafitas e etc.), cômodos únicos ou favelas.

Esse contingente revela não apenas vulnerabilidade social, mas também um potencial econômico desperdiçado. A falta de moradia estável compromete a inserção produtiva, a qualificação profissional e a mobilidade social, perpetuando um ciclo de exclusão que sobrecarrega o Estado. Experiências como o programa “Minha Casa, Minha Vida” mostraram que políticas habitacionais podem dinamizar a economia, gerar empregos e reduzir déficits estruturais. Contudo, a construção periférica e desconectada dos centros produtivos evidenciou limitações significativas.

Por outro lado, a especulação imobiliária, a reserva de mercado de aluguel e os interesses econômicos ligados à exploração imobiliária e fundiária travam iniciativas como a reocupação social de imóveis privados ou públicos abandonados. No campo, a realidade é semelhante: grandes latifúndios e a ausência de uma reforma agrária ampla impedem o acesso à moradia e à terra para cultivo, manutenção essencial para evitar o êxodo rural.

Uma solução eficaz exige abordagem integrada: moradia digna, inserção produtiva e proteção de renda transitória. Programas de locação social subsidiada e requalificação de imóveis ociosos em áreas centrais podem ser mais ágeis e eficientes do que a expansão urbana dispersa. Paralelamente, a articulação com formação técnica e universitária transforma beneficiários em agentes econômicos ativos. O modelo internacional “Housing First” (EUA) demonstra que a estabilidade habitacional aumenta a permanência no emprego e reduz custos públicos em saúde e assistência.

A experiência chinesa mostra que construir moradias em larga escala não basta se o acesso for limitado por barreiras institucionais, como o sistema Hukou, que restringe direitos sociais a migrantes internos. Assim, a política habitacional precisa ser universal e inclusiva.

Portanto, enfrentar a falta de habitação digna não é apenas uma medida social, mas uma estratégia de desenvolvimento. A moradia deve ser compreendida como infraestrutura econômica capaz de ampliar produtividade, formalização e consumo interno. Transformar vulnerabilidade em capacidade produtiva é, ao mesmo tempo, um imperativo ético e uma exigência de racionalidade econômica.

Por último, mas não menos importante, um alerta a CNBB e a Igreja católica. O padre Júlio Lancellotti precisa ser inserido na campanha da “Fraternidade e Moradia” É muito incoerente sua ausência, a suspensão de suas redes sociais e sua invisibilidade. Revisem essa atitude com padre Júlio, pois a história contará que os poderosos da igreja católica criaram um novo “Jesus sem teto” em pleno século XXI.  

 Zélder Reis


Fontes e biografia:
CNBB Downloads https://campanhas.cnbb.org.br/arquivos/ acessado em 17/02/2026
IPEA População em situação de rua supera 281,4 mil pessoas no Brasil - Ipea
Agência Brasil Mais de 335 mil pessoas vivem em situação de rua no Brasil | Agência Brasil

Diocese de Campanha MG Formação sobre a campanha da fraternidade 2026. https://www.youtube.com/live/J_YeB2R2aD0?si=1NT8JeR6tkdMVOdA acessado em 17/02/2026

 



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Tarifa zero já!

 Passagem de ônibus mais cara? Tarifa zero já!

A Tarifa Zero no transporte público representa uma política de inclusão social ao garantir mobilidade como direito, e não como mercadoria. Ao eliminar o custo da passagem, amplia o acesso da população a emprego, saúde, educação e cultura, reduzindo desigualdades territoriais. A medida também estimula a economia local, pois aumenta a circulação de pessoas no comércio e nos serviços.

Toda vez que tem aumentos de tarifa pra compor os custos do sistema, a resposta social é menos passageiros e mais buscas pelo transporte individual, transformando a vida nas ruas da cidade em caos, com poluição, aumento do consumo de energia e acidentes no trânsito.

Experiências como a de Maricá mostram que é possível estruturar o modelo com planejamento e fontes próprias de financiamento. Além disso, o sistema simplifica a operação, reduz custos de bilhetagem e conflitos no embarque.

A Tarifa Zero contribui para diminuir a evasão escolar e facilitar o acesso a tratamentos de saúde. Também fortalece a vitalidade urbana, com mais pessoas ocupando os espaços públicos e menos carros e motos. Trata-se, portanto, de uma política que articula mobilidade, justiça social e desenvolvimento local.

Zélder Reis


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Não fomente a intolerância prefeito!

Foto: Instagram Talk Show dos Lagos

O prefeito de Cabo Frio declarou:
“Esse é o único bloco que eu vou!
Queriam entregar a chave ao Rei Momo, mas eu não fui.
A chave dessa cidade é do Senhor Jesus, não do Rei Momo.”

Reflexão:
O prefeito não participa do carnaval, dos blocos e nem dos próprios eventos da prefeitura durante o período festivo. Isso revela não apenas falta de diálogo, mas também medo de críticas. Sua aprovação se sustenta apenas na bolha dos bajuladores, contratados, comissionados e fornecedores.

O carnaval é plural: reúne evangélicos, católicos, povos de matriz africana e tantas outras religiões. É festa de santos e pecadores, de fé e de cultura.

O que o prefeito pretende? Deturpar a festa? Se esconder atrás da identidade evangélica? Ele não pode atacar o carnaval, uma manifestação popular, de feita e apreciado pelo povo pobre, mas rica culturalmente, que gera faturamento para a cidade. Talvez busque agradar pastores aliados, já que com a família Bento não quer ouvir falar de Serginho.

Vale lembrar: há evangélicos e católicos em todos os espaços, partidos, quilombos, comunidades de pescadores, escolas e locais de trabalho. No carnaval, vai quem quer: alguns assistem pela TV, outros preferem retiros espirituais. O que não se pode é colocar a sociedade em guerra contra o carnaval ou boicotar os recursos pois cultura é um direito!

Prefeito, saia da internet e vá trabalhar para todos e todas!

Mensagem final:
Abraços carnavalescos Cabo-frienses. 
Brinquem o carnaval como quiserem, cada um à sua maneira!
Zélder Reis