domingo, 9 de agosto de 2026

Riqueza Orçamentária, Pobreza Educacional e Prioridades Invertidas: O Escândalo do IDEB em Cabo Frio


Por Zélder Reis

A gestão pública não é apenas uma questão de números e planilhas; é a expressão direta das escolhas políticas de um governo. Quando analisamos os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) em Cabo Frio, o que salta aos olhos não é uma mera falha técnica de gestão, mas um projeto político que escolheu deliberadamente virar as costas para a escola pública e para quem a faz acontecer no dia a dia.

Cabo Frio ostenta a 12ª maior arrecadação entre os 92 municípios do Estado do Rio de Janeiro. Impulsionada pelo volume bilionário dos royalties do petróleo, do IPTU e do turismo, a máquina municipal transborda recursos. No entanto, quando olhamos para a sala de aula, a realidade é vergonhosa: o município amarga posições entre a 73ª e a 77ª colocação no ranking do IDEB estadual.

Para onde vai, afinal, o dinheiro de uma das cidades mais ricas da Região dos Lagos?

Enquanto os cofres públicos irrigam contratos milionários, custeios duvidosos, despesas burocráticas e gastos ineficientes que em nada somam à aprendizagem dos alunos, a ponta final do sistema é tratada com absoluto desdém. A prova cabal dessa deformação de prioridades está no contracheque: um professor da rede municipal com jornada de 20 a 30 horas semanais recebe um vencimento base que beira a humilhação, "cerca de R$ 1.621,00" e ainda é negado o 13º salário proporcional em uma lei municipal inconstitucional.

Trata-se de um escárnio político. Exigir metas, cobrança por resultados, fluidez no fluxo escolar e índices de excelência no IDEB pagando um salário indigno a quem sustenta a educação nas costas é uma contradição perversa. O dinheiro existe e é abundante, mas a decisão política do governo tem sido a de desvalorizar o magistério e pulverizar a verba pública em gastos sem retorno social.

O resultado do IDEB, caindo a patamares críticos e retrocedendo a marcos de duas décadas atrás, não é um acidente. É o fruto direto de escolhas orçamentárias equivocadas, do descaso estrutural com as escolas e do sufocamento salarial dos educadores. E diante de um quadro tão avassalador, o silêncio da Secretaria Municipal de Educação e do Poder Executivo deixa de ser omissão e passa a ser cumplicidade com o fracasso.

Cabo Frio não padece de falta de recursos; padece de falta de prioridade política. Cada real desperdiçado em gastos ineficientes enquanto o professor recebe R$ 1.621,00 é uma escolha consciente de manter a educação municipal no atraso. Cobrar uma reformulação orçamentária urgente e a valorização real do magistério não é um debate partidário, é a única via para resgatar o futuro das crianças do nosso município.